Passar um ano sem palco é ver as coisas ao redor como simplesmente matéria triste que queria estar dançando. Há um reconhecimento mútuo, no que tange a incompletude, e então fica-se sabendo duas coisas: porque chove de vez em quando e porque o céu perde a cor viva em alguns dias.
Em pretensão de que aquilo que tem um tal efeito em ti iria mover o outro igualmente, tenho arriscado a pensar que pessoas são tristes por compor corpo em tempo e espaço de forma muito, muito estática.
Ontem teve palco de novo.
Pensei tanto em você. Você, que se soubesse que ando mais cinza que o céu em alguns dias teria me segurado muito mais.
Passaram quase exatamente dois anos desde que você veio pela última vez, e se viesse agora..
Você teria entendido quando eu falei que nas coxias, em fim de espetáculo, parecia que tinha fonte de sangue em mim que não parava de escorrer e que me doía muito a garganta? E se eu escolhesse, quando saísse do teatro, ficar um pouco na chuva muito muito quietinha você saberia que é por toda essa opacidade que tenho hoje? Você deixaria? Deixaria eu chegar em casa e querer ficar sozinha dormindo? Ainda ia me amar do mesmo jeito, sabendo que a felicidade pós-palco que sinto hoje é menos infantil? Sem tantos pulos, ou gritos: vontade de recolhimento.
Danço pelos dias sobre dor e saudade.
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Quanto a pequenos rituaizinhos em bastidores, meu amor,
Felicidade imensa de lembrar que há dois anos o meu foi só te buscar e te ver, e foi o melhor de todos os que coleciono. Até hoje.
sábado, 5 de dezembro de 2009
Para Dri.
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sábado, 28 de novembro de 2009
Então que sempre haja dança
É a única coisa que eu pediria.
Porque é sábado de manhã e você acorda em melancolia, mas feliz: é a preparação mais importante para o dia pelo qual espera há muito. Porque você planeja suas horas em torno daquilo, porque chegará mais tarde no aniversário do seu pai por causa daquilo.
E você que quase nunca está na hora certa, finalmente está. Toma banho, passa o rímel e batom vermelho que pediram. Mas começa a chover incessantemente enquanto você é só uma pessoa esperando um ônibus enquanto quer muito sapatear.
Então que sempre haja dança, porque passa um ônibus que te encharca.
Passam dois, passam três, quatro e cinco, porque passam carros de todos lados e alguns ônibus e alguns carros passam propositadamente onde há mais enxurrada porque pessoas cobertas em água suja são fonte de felicidade para motoristas. Do lado de fora, você os sente vibrando alegres nas suas cabinezinhas de onde se vingam de pessoas simples e de você, tudo por estarem trabalhando numa tarde de sábado, tudo por cansaço.
Que haja dança pois você está cercada de favelados que cantam músicas medíocres e devem ter sofrido tanto na vida, que aquilo tudo é piada para eles, e eles riem. Que haja dança porque você é só uma burguesinha que pode dançar ballet e estudar línguas mortas por prazer e por isso não pára de chorar de raiva, indignada por te tratarem daquela forma por nada. Que haja dança porque se não houvesse você cumpriria a própria vontade, a de voltar pra casa chorando que nem criança e ligaria para quem está escolhendo não te amar do mesmo jeito nesse momento por problemas que não existem. Que haja, porque você se promete que não vai voltar ou ligar e você chega atrasado e molhado em água com vermes mas você dança assim mesmo e por instantes tudo fica bem. Que as mesmas mãos que dirigem volantes que controlam pneus que passam por cima de poças que atacam civis servem, por vezes, para se tocarem e produzirem palmas que se espalham que emocionam bailarinos que sapateiam em glória. Glória.
Que haja sempre dança, porque depois do palco você será só uma menina esquisita esperando outro ônibus para enfim ver o pai, em all star molhado e cabelo fedido com uma roupa de espanhola (as próprias ainda estáo encharcadas de água com bichinhos) comendo uma barra de chocolate daquela maior como se fosse a última fonte de serotonina do mundo.
Então que sempre haja dança: encontrar na imanência uma rendenção pela qual te aplaudem é ser de todo absolvido em plena luz do dia.
E eu me rendo, eu me rendo, eu me rendo, eu me rendo.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Gi, the warrioress.
O que a gente fez mesmo?
Entre ver o mesmo filme uma vez por dia por dias, entre escolher recluso com céu azul lá fora e mar, seja lá o que tenha sido tomou dimensões tão.
E eu sei que a gente se perdia da outra frequentemente, que era porque você precisava muito estar à vista do Lucas... que a gente se perdia por dois amores diferentes que sentia e você não conseguia conciliar dois amores. Não dói mais: a gente só tinha 5 anos. Eu que era besta, eu que era... não tinha sentir muito com 5 anos, só tinha que contar pra minha mãe e brincar com outra pessoa.
Eu ia pra casa da vó pra te ver porque você ligava, mas depois jogava água nos meus olhos brincando na piscina por querer. Nossa, eu sofri tanto prá entender o motivo, sinto agora os nós na minha garganta desfazendo, vou ficando curta, curta. Partícula. Uma moça que entende o amor do outro é uma partícula... ora, entender é coisa pequena, minúscula. Alguém ama, você abraça. É nada. Mas é que basta, meu bem... pra qualquer coisa de grandioso brotar, suficiente pra sustentar um todo.
Sim, boa parte dos desafios da vida de uma mulher consiste em ser partícula. Perto de você eu consegui. Dar um passinho.
Cresci toda amarrada por tua causa, meu deus. Só que cresci colorida.
Assim: a gente ia criando um universo toda vez que ninguém olhava, nas mesmas cenas e nas ondas de mar que não queríamos ver. As coisas iam adquirindo uma forma própria, de interpretação tão nossa, e ninguém podia saber. Ninguém mais cabia. Toda visão tinha um pedaço não visto que era profundo, extenso que a gente descia e pulava sem olhar pra trás, até você precisar voltar (eu sempre permanecia um pouco mais.)
Aí me coloriram.
Aí teve a época que eu fiquei por anos e você foi embora.
Você foi e não pode saber do que houve...
Não pode ler meus recados, não pode saber que eu beijo mulheres e gosto, não pode saber que eu sei dançar e pouca coisa mais me importa e que pra mim Homero tem mais utilidade que a faculdade de Direito que você escolheu. Porque nesse mundo com que me ajudou, se te ausentas por um minuto quem ta lá dentro se sente só e se doa pra todos os milhões de insights que invadem e consegue ser muito pouco para-além do próprio pensamento. Você não pode saber.
Você não joga mais água nos meus olhos, a gente não tem mais uma agência de espionagem secreta, não investiga quem roubou dez reais do nosso avô, a gente nem tem mais um avô... não assistimos Dirty Dancing há anos, nunca mais viajamos pro nordeste.
Trocamos vídeo game por Sex and the city, e ainda não temos coragem de contar por quem nos apaixonamos. Nos conhecemos em parte, mas eu te amo inteira. E família é isso, certo? Só se suportam porque não sabem do outro até o fim. Não sabem com que andam sonhando, nem porque choram a noite quando ninguém vê, nem quando perderam a virgindade, chegam a ignorar a humanidade do resto, vê-los como super heróis que não morrem, chegam a se assustar quando hesitam. Mas ficam juntos.
Não escondo: você é pra mim guerreira quase-deusa de armaduras cor de rosa.
Mas admito, nos resquícios mundanos em que ainda nos alcançamos:
Te perdôo pelos nós integralmente.
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sábado, 12 de setembro de 2009
Explode minha cabeça em dor,
pois que não tenho deixado frequentemente minha voz gritar.
É que sigo em descompasso com tudo fora de mim,
e aí eu sigo em pedaços.
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segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Em resposta
Já de você, me lembro a partir de tudo que é amargo. E falso. Que sejam mechas vendidas em farmácia, ou sensualidade pretensiosa, que de tão mísera e artificial não serve nem para ser captada sutilmente: Tem que ser dita e reafirmada, para que sua pessoa não passe despercebida. Exatamente como uma prostituta, que lhe tem valor atribuído apenas em favor de seu possível uso - como nada digno de ser fim em si mesmo. A você associo tudo quanto já me dera pena. Associo todas as já lidas palavras mal-escritas, que mostraram que se perder nem sempre é caminho para desprovidos de qualquer perspicácia. Continuo esperando que o abraço dela se situe lá, meramente detrás do teu tempo. Que você fique fora do meu. E sua existência, fora de todos.
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quarta-feira, 22 de julho de 2009
Com os olhos enterrados em inchaço
e quarto inundado de lágrimas de uma vida inteira,
surge corte no tempo
saio de mim
e contemplo
que além de toda dor
transcendo a miséria e consigo me manter acordada
apenas com o inuito
de assistir nuvens nascendo.
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
estado de graça
E eu me prometo nunca esquecer os resquícios de inocência que cada um guarda escondido.
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sábado, 30 de maio de 2009
Reservo, então, uns minutos de glória e gratidão por terem me dado, tão cedo na vida, momentos de certeza e de impressões tão fortes pra realmente saber do meu caminho.
Nem tanto de como é traçado, que se fosse assim teriam me dado a qualidade de sobrehumana, e para isso nunca ajoelharia...
Agradeço saber de seu onirismo - e que isso jamais se opõe ao ser-de-fato de algo.
Que pertence aos confins de consciência em que tudo é tácito, porém diluído. Parte em outra. Em que tudo se encontra, aceita e se entende. Mesmo que sem razão.
Meu caminho é uma ode ao devaneio.
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Vazio se ocupou de mim um pouquinho hoje, quando acordei.
Depois foi só Saudade.
Saudade da velhinha que me motivou a continuar sendo só parada lá, dando sua aula.
Num dia de início de ano ela enfiou uma Metafísica ali no meio e eu fui só lágrimas quando o sinal tocou: ela entendia. E eu por dentro era tão minúscula ainda, queria tanto que ela soubesse o quanto era feliz, o quanto a amava. Porque ela entendia.
Até que, deve ter sido em outubro, porque eu nunca fui tão pura na vida a não ser naquele outubro, ela pegou na minha mão e eu disse bem assim [ fui tudo que consegui ] ''Ai, Olívia, eu amo literatura."
E ela já sabia.
Agora são quase dois anos depois, minha querida. Eu tenho do meu lado Ulisses e Homero, Heráclito e Safo de Lesbos. Tudo junto contigo.
Eu tenho fome de García Marquez, de Saramago, Lygia Fagundes Telles, junto contigo à distância e a todo sentimento pleno que me vem quando penso em ti. E toda vontade de ser grande como tu; saiba que o coração grande e mole escondido como o teu é minha verdade.
Hoje a saudade é tanta que fui ali, pro mesmo lugar onde se reencontraram todos os ciclos da minha vida quando eu tava pra sair de casa, e parei um momento. Sabes que tinha um homem, apoiado numa bicicleta, olhando pro mesmo lugar? Aposto que viu a mesma coisa. Aquele zilhão de moléculas de água se prolongando dando a ilusão de mar, ignorando as casinhas de trás. Na época as águas de lá se inteiraram com as dos meus olhos pela primeira vez, hoje são uma só - então isso é que é ser árcade?
Quis contar a ele que eu entendia, assim como você.
Surjo pasma, então, com a descoberta de que lembrança também é purgação. Sai de mim tudo que eu fui ali, te vendo dando aula, me reencontrando e querendo voar. Em-si do que ninguém conhecera muito bem - já disse que meu coração ama esconder-se.
Retorna a mim, sempre maior - ring composition da vida, como sempre - e te sinto mais.
Na esperança de ser grande assim, que o cinza seja som de riso já pela noite.
Que esse coração meio simbolista, meio torto, meio pré-socrático, todo 2007 se aquiete. Com toda saudade doída de agora, te mando todo desejo de luz que consigo.
Levo comigo tuas aulas e principalmente os abraços trocados do lado de fora.
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2009
De súbito, a cidade se revelou.
Enquanto a natureza acabava de chorar comigo (é que choveu por dias... e dias... e dias... ) foram se dissolvendo os prédios. Que arrastavam os carros. Que arrastavam o Cinza. Que arrastava as Nuvens. E aí, Azul.
Dessa vez não foi só a calmaria momentânea que me serviu de combustível: há exato um ano sentia que faria uma escolha e como tudo até então havia sido tão natural e dado, eu não sabia bem que escolher era renunciar. Sabia que era belo, no máximo, ignorando que as coisas belas também doem nos outros. Por si mesmas.
Chovia consecutivamente, incessantemente. Desmancharam-se ruas, morreram gentes e só sobraram o que sentiam... e isso já era o anúncio. De que finalmente consegui conciliar o tempo de mim com o tempo do mundo e dado que agora o céu é límpido - ainda bem que alma é regenerável -, sou eu quem anuncio com orgulho: eu sou um corpo que finalmente ocupa sua própria época. Frenética, líquida... mas inquietude também cabe nesse corpo.
No exato agora eu sinto que farei escolhas pronta para renunciar.
E renuncio à idéia de muitos de que é preciso muito para se ser pleno.
Postado por N. às 7:23 PM 4 comentários